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Os Blind Boys com o cantor pop Ben Harper na gravação de um DVD. O grupo formado por cegos transita facilmente entre a música gospel e a secular
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Por Marcos Paulo Bin
01/05/2005
Estados Unidos e Inglaterra, mecas da música pop, são países de população
majoritariamente protestante. Na música, isso se reflete de várias formas.
Primeiro, é comum nesses países acontecer o crossover, ou seja, artistas
que cantam música religiosa terem espaço em veículos de massa (casos de Michael
W. Smith, DC Talk e Lara Fabian, por exemplo). Também é freqüente que artistas
nascidos em berço evangélico partam para a carreira secular sem esquecer suas
raízes, como aconteceu com Elvis Presley e, bem mais recentemente, com Lenny
Kravitz. Situações ainda pouco comuns na música gospel brasileira, vítima de
preconceitos mas também demais conservadora em alguns aspectos.
Em mais de seis décadas de carreira, o grupo vocal americano The Blind Boys of
Alabama tornou-se um exemplo de como a música religiosa pode extrapolar os
limites da igreja e chegar ao grande público. Criado em 1939 por cegos saídos do
Alabama Institute for Negro Blind, o grupo é formado hoje por Clarence Fountain,
Jimmy Carter, George Scott, Joey Williams, Ricky McKinnie, Bobby Butler e Tracy
Peirce, quase todos na faixa dos 70 anos de idade.
Embora tenha como referência o gospel tradicional, os Blind Boys sempre buscaram
a aproximação com a música contemporânea. Nos anos 2000, principalmente depois
do disco Spirit of the Century, de 2001, o grupo entrou definitivamente
para o mainstream da indústria fonográfica, gravando ao lado de grandes
astros da música pop internacional.
Spirit of the Century e os dois CDs seguintes, Higher Ground (2002) e
Go Tell It on the Mountain (2003), renderam aos sete senhores de Alabama
o Grammy de Melhor Álbum de Soul Gospel Tradicional. Em 2004, a parceria com
Ben Harper no CD There Will Be a Light rendeu-lhes mais um troféu,
novamente de Melhor Álbum de Soul Gospel Tradicional; sozinho, Ben Harper levou
o “Oscar da Música” por Melhor Performance Pop Instrumental, na faixa 11th
Commandment. O disco – escolhido pelo
UNIVERSO MUSICAL como o melhor de música internacional no ano passado
– deu tão certo que gerou um DVD, Ben Harper and the Blind Boys of Alabama
Live at the Apollo, lançado no último mês de março.
Além de Ben Harper, os Blind Boys já foram convidados para cantar com artistas
como Tom Waits, Lou Reed e Peter Gabriel, dono do Real Word (selo da EMI Music),
por onde gravam desde 2001.
Novo disco traz rap e blues
Os Blind Boys nunca se mostraram preconceituosos em seu repertório. Na longa
discografia do grupo, músicas gospel tradicionais como Amazing Grace e o
Salmo 23 convivem em harmonia com releituras para canções de Bob Dylan (I
Believe in You), Tom Waits (Way Down in the Hole) e Ben Harper (I
Shall Not Walk Alone). Eles também já gravaram músicas dos Rolling Stones,
Prince, Jimmy Cliff, Stevie Wonder e Curtis Mayfield, entre outros. Além disso,
participaram de trilhas de filmes e seriados de TV famosos nos Estados Unidos.
Todas essas características estão presentes no novo CD dos Garotos Cegos de
Alabama, Atom Bomb. É o disco mais ousado do grupo, agregando novos
elementos sonoros à sua musicalidade. Além do soul, do folk e do gospel,
presentes em faixas como (Jesus Hits Like the) Atom Bomb, Presence of
the Lord e Moses, há rap (Demons), rock (Spirit in the Sky)
e blues (Faith and Grace, New Born Soul).
A maioria das 10 faixas é de músicas gospel de domínio público, cantadas nas
igrejas americanas. Mas duas fogem a essa regra, tendo sido gravadas ou
compostas por artistas nada óbvios. Demons é uma música que o DJ londrino
Fatboy Slim registrou no CD Halfway Between the Gutter and the Stars
(2000), com os vocais de Macy Gray. Aqui, os Blind Boys contam com a
participação do rappper The Gift of Gab, que forma o duo de hip hop
Blackalicious com Chief Xcel. Já Presence of the Lord – com participação
do lendário Billy Preston tocando órgão Hammond – é um rock de Eric Clapton
gravado por ele quando integrava o grupo Blind Faith. Foi uma das faixas do
único e polêmico álbum da banda, de 1969, que trazia na capa uma adolescente com
os seios de fora.
Tamanho envolvimento dos Blind Boys com a música secular poderia gerar uma
desconfiança quanto à intenção do grupo de realmente levar uma mensagem de fé.
Mas basta prestar atenção nas letras que qualquer dúvida se dissipará. A
primeira faixa do novo CD, (Jesus Hits Like the) Atom Bomb, é o melhor exemplo disso. Composta na época da Guerra
Fria por Lee McCullom, a música alerta as pessoas para não se preocuparem com os
problemas da Terra e se prepararem para a volta de Jesus, como está previsto na
Bíblia.
“Você sabe, agora todos estão preocupados / Com a tal da bomba atômica / Bem,
ninguém parece se preocupar / Com o dia em que meu Senhor virá / É melhor você
organizar sua casa / Porque Ele pode vir em breve / E ele atingirá como uma
bomba atômica / Quando ele vier, quando ele vier”, diz a letra.
Além de gravar discos geniais, como é este Atom Bomb, os Blind Boys
mostram como a canção de cunho religioso pode tornar-se popular. Eles são, sem
dúvida, um modelo para a música gospel nacional.